Quando cheguei a São Paulo, há quatro anos, fazia um frio de doer a alma. Lembro que eu usava um casaco azul, leve demais, como que para peitar a hostilidade urbana que me recebia gelando a pele. Eu levava uma mala grande, cheia de roupas do passado, mas a bagagem mais pesada não fazia parte da vida pregressa, mas da que ainda estava por vir. Pesavam as expectativas, o medo e, sobretudo, a vontade de imprimir minha marca na cidade cinzenta. Eu só queria oportunidade para contar a vida dos outros pelo meu olhar e, os quarenta e cinco dias de emprego garantido que tinha, acabaram se estendendo até eu me misturar à poeira da cidade.
Hoje, depois de muitas histórias contadas sob inúmeros olhares que descobri ter, ainda me pergunto qual o propósito de andar entre essas ruas e sentar-me à frente de um computador todos os dias. Penso no que poderia ser se tivesse feito escolhas diferentes e, esses inúmeros caminhos possíveis, me perguntam se estou construindo a Ana que quero. Talvez não haja resposta porque a vida é feita mais de subjetividades temporárias que de certezas atemporais.
Diante das questões inevitáveis trazidas pelo tempo, as palavras me consolam. Escrever ainda é o modo mais eficaz de me traduzir e de sobreviver. Desde que aprendi o ofício, o mundo tornou-se mais palatável. É assim que faço a digestão dos dias que se seguem. Quando me sinto só, independentemente de estar numa multidão ou na escuridão do quarto, basta pensar que ainda existe assunto, papel e caneta nesse mundo. É só o que preciso para construir quantos outros mundos eu quiser.
Thursday, May 13, 2010
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2 comments:
Ê São Paulo!
Ê reflexões!
Flor que saudadeee
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