Monday, February 09, 2009

MAMÃE MARILYN

Enquanto ela estava na cama de um hospital eu enrolava seus cabelos amarelados com os dedos e a chamava de Marilyn Monroe. Ela sorria. É estranho não poder mais ligar para aquele número usual, dizer: "Alô" e ouvir "Oi, filhinha", de volta. A carderneta de telefone dela está em minhas mãos, com nomes de doutores das mais variadas especialidades porque ela passou um ano tentando descobrir o que tinha. Só disse que estava passando muito mal quando já era tarde demais, quando só pudemos cuidar da alma que se esvaía pelas dores que sentia. Minha mãe... Trabalhadora como tantas brasileiras o são. Morava na periferia de Belo Horizonte e gastava mais de meia hora puxando cabelos difíceis na escova para ganhar R$10. E mesmo assim, de dez em dez, ela fazia a vida naquele salãozinho simples e tentava ser feliz. Mamãe Marilyn era estudiosa. Na parede da casa, mais de trinta cursos de cabeleireira. O retorno financeiro não vinha porque a clientela era pobre, mas acho que ela estudou para encher a mente, não o bolso. Lembro dela fazendo beijinho de coco, cajuzinho, pão frito, pizza de atum... Lembro dela cantando canções religiosas antes de eu dormir e que voz ela tinha! Sorriso fácil, cabelo curto, cada hora de uma cor e eu não sei o que ela procurava com tanta mudança... Quem sabe um grande amor? Vinte e cinco anos depois de me por no mundo, eis que ela se foi, rodeada por flores brancas das quais eu não sei o nome. As mãos estavam dobradas, uma por cima da outra, e havia uma tela fina que não me deixava mais enrolar os cabelos amarelados que deixaram de ser rebeldes com o tempo. Minha mãe se foi, mas ainda fica. As cadernetas, o colar de coração e as pulseiras são parte da herança que surrupiei da bolsa dela para tê-la comigo através dos pequenos badulaques que usava. Não são só os objetos que me lembram ela... A cada esquina que viro, a cada passo que dou, sinto os olhos verde-amarelados e a boca num meio sorriso à espreita. Quando olho no espelho, vejo parte dela refletida no meu amor pela vida, na minha inconstância natural. Não podemos nos falar e não ouvirei mais seus conselhos sobre a moral e os bons costumes. Nem aproveitarei mais daquelas mãos puxando os meus cabelos para fazer hidratação enquanto tentava me convencer a virar cobaia de algum corte que tinha aprendido. O CORTE. Cortaram o meu cordão umbilical mais cedo do que eu gostaria. E a minha Marilyn foi embora, vestida toda de rosa e com os lábios opacos. Hoje os meus olhos estão mais cinzas, reverberando palavras que ouvi durante uma vida. O TEMPO... É cruel e implacável, mas sempre o certo para o que precisamos aprender...
ps: por favor, perdoem, amem e beijem mais as suas Marilyns. Sempre. Elas fazem falta.

2 comments:

Unknown said...

Minha flor sentimentos e muita força,as lembranças ficam para sempre.força.

Adriano said...

Aninha, a dor e a falta são sentimentos que lhe acompanharão para todo o sempre. Não gosto de pieguices, mas tenha certeza que sua Marilyn estará sempre viva no seu coração.

Foi ótimo passar o dia com você no Rio. O sol brilhou mais que nos outros dias e a feijoada tinha gosto de uma cumplicidade imensa.

Um beijo!